quarta-feira, abril 26, 2006

Pois é Carlinhos, a Unimep resolveu agradar em cheio os estudantes de filosofia e cinéfilos em geral

Enquanto meu velho pai frita na frente do pc, terminando sua declaração do imposto de renda, cá estou em outra modalidade de fritura. Estou tentando permanecer por mais de quarenta segundos analisando os piores momentos da vida que divido com animais pensantes.

Sabe, o tédio resolveu atacar covardemente hoje meus estímulos, era apenas o caminho de pegar um café e me dirigir para mais aula de Planejamento Gráfico, mas não, eu tinha que travar um encontro desnecessário com o boçal.

Bebi uma garrafão de utopia pela manhã hoje e esqueci por completo de me prevenir ao caminhar pela faculdade : toda vez que observo a fundo os estudantes da Unimep sou tomado de um instantâneo nojo, uma repulsa demente que circula manchas vermelho-sangue por sobre tudo o que me é exaustivo. Publiciotários desfilam inocentes pelo campus com seus bonés coloridos alienantes; saltos de loiras portadoras de merda encefálica carregam risadas deprimentes em seus frenéticos gestos afetados e previsíveis; garotões da maromba intensiva tentam alargar discretamente os ombros e estufam o peito, afim de afastarem qualquer insegurança nessa brincadeira punheteira do mundo do espetáculo – tanto faz se vai pagar com cartão ou se vai enviar por torpedo, o bocejo é o mesmo.

Sim, tenho conhecimento de que o quadro é similar em inúmeras & diversas universidades, blá blá blá...e tome analfabetos funcionais constrangedores, morrendo estéreis, afogados em seu sábio repertório de propagandas descoladas e suplementos sociais patrocinando celebridades que não sabem fazer porra nenhuma.

Assim como Pierre Bourdieu defende que “não pode haver democracia efetiva sem um verdadeiro contra-poder crítico”, não pode haver cultura sem contracultura. E quase todos envolvidos no exercício ativo da construção da linguagem cultural universitária na Unimep são uns sujeitinhos farsantes, sombras rasas de si mesmos, fantasmas de erros do passado apenas a travar sua birrenta luta egotípica pelo próprio umbigo; tagarelas convictos em suas jogadinhas pseudo ambiciosas repletas de “sacadas geniais”. Muita astúcia para não ficar na bronha não? A decantada autopromoção picareta mais uma vez inunda de tédio o organismo inquieto, o organismo inquieto de quem espera fúria e criatividade dionisíaca – fervilhando provocação ao punho efusivo do coração rouco – descabaçando as próximas gerações.

quinta-feira, abril 20, 2006

Bom marido, esposa perfeita

Oléo, muito óleo, comida oleosa do casal caminhoneiro. Você vê Bill Burdon passando o braço peludo pela cintura de Sarah Lewis - tudo o que eles querem agora é um pouco de descanso em seu pequeno quarto sujo, mofado, e com a geladeira repleta de cerveja barata trincando.

Bill Burdon é um cara durão: dormiu segunda-feira pela centésima vez no xadrez. Matou o irmão efeminado aos quatorze anos, numa inocente brincadeira com facas no chão da cozinha. Olhou feio? Ele cospe. Falou algo que lhe desagrada? Burdon desce o braço, na mesma hora. Partiu pra cima dele é bala, é bang bang, é head shot, baby.

Bill administra seu 1,87 de altura com muitas flexões e fumou muita maconha no exército. Masturbava-se regularmente nessa época com revistas de terceira mão, e comeu num velho Ford Petsy, a garota bunduda da língua presa , uma curvilínea rapariga, que por hábito herdado dos pais fazia palavras cruzadas frenéticamente durante as férias. Petsy alcançou 8,5 em Aritmética na época em que menstruou pela primeira vez. Saudades imensas do prof. Lucious G.

Sarah é ex-frequentadora da Capela de Santa Jones. Toda flácida, não acredita nos outros e confessa ser dona de uma cavidade vaginal de proporção notável, muito pequenina mesmo. Ela diz para as primas que consegue aturar bravamente o mau hálito de seu marido, talvez porque desconfie que ele também não suporta suas axilas mal “reparadas”. Estética clássica não é com eles, fica aqui o aviso.

Bill Burdon, aficcionado por comer bacon, bacon, muito bacon baby. Certo dia desmaiou na frente de um tradicional clube de bingo. Horas depois ele morria loser, sem sequer ter ciência da chegada da sua terceira leva de hemorróidas. Sarah chorava copiosamente ; o diretor do hospital murmurava " Eu lamento Sra Burdon" em uma cadeira manca, residente fixa do funesto hospital. A cadeira era disponível na cor cinza, o ranho do lenço da nova viúva no tom verde e Sarah não poderia mais trepar com Bill enquanto via aquele seu seriado enlatado. Bill deixara inúmeras contas e um pouco de fumo numa enferrujada lata de biscoitos. Sarah, por sua vez, precipitou-se com destreza no consumo exacerbado de toda e qualquer espécie de bebida alcoólica. Bebeu seus dias sem Bill.

Jerry era dono de um novíssimo suéter verde limão. Jane chupou Jerry no dia da formatura, bem atrás do campo de beisebol. Jerry possuía um aristocrático topete, coisa de quem usa brilhantina com esmero e cuidado, poucos centímetros à frente do espelho do corredor. Jane chupou Jerry no dia da formatura, e assim o sexo casual fez sua poesia em versos livres. Depois de entubar Jane, Jerry torna-se papai. E assim Sarah Lewis surge retumbante pelos engasgos fortuitos dos anais da história.

Jane chupou Jerry no dia da formatura do verão de 68, atrás do campo de beisebol, e por extensão a esse fato, Sarah tem que nascer. Sarah casou-se posteriormente com Bill, que tinha trepado furiosamente por semanas com Nancy, que carregava libidinosos desejos secretos para com Sarah, que na época experimentou cocaína escondido de Bill. O boom disco seguiria anos depois. Bill então seguiu como lenhador, depois pipoqueiro e por fim chapeiro titular de uma pequena lanchonete em um bairro lúgubre. Bill trazia no bolso da alma centenas de sonhos formidáveis, boas intenções também; contudo ele era um traste quando bebia acima da conta. No dia de ação de graças do ano de 75, Bill ficara completamente nu em frente à uma passeata tradicional de senhoritas presbiterianas; a cena configurou-se em verdadeiro horror para a vizinhança presente. Um cinegrafista amador afirma ter registrado o incidente. Bill Burdon juntou todas suas economias para oferecer uma lua de mel tardia em Puebla com Sarah e um rádio portátil. “Ó Bacon, trucidastes meus planos, fodeste bonito minha carcaça e impossibilitastes definitivamente minhas bebedeiras futuras...”

Sarah tornara-se uma bêbada compulsiva, perdendo gradualmente os dedos dos pés e boa parte da arcada dentária que um dia rendeu litros de inveja nas companheiras de classe do ginásio. Numa bela tarde de tédio irreversível e enganos pueris, ela misturou bacon do bom com um batalhão reforçado de barbitúricos.

"Hey Bill, cheguei! Cheguei mon amour, vamos trepar no pátio vermelho, ali mesmo, onde Belzebu está bolinando Maria Madalena."

quinta-feira, abril 13, 2006

Sem título

A tarefa de por o lixo na rua é deveras gratificante. Todo santo dia meus punhos adotam o ofício de buscar os restos do meu consumo ignóbil - lá estou eu mandando bronca na missão: ajeito o sacão preto com maestria perto da árvore na frente de casa – um estacionamento gratuito enquanto a noite começa a chegar toda ensaboada e envernizada.

Dentro do saco da quarta-feira eu ouço as vozes em ré menor das cascas de banana do domingo, percebo estupefato os bagaços de laranja experimentando um tango do Astor Piazzola, e no final do expediente sensorial ainda assisto um restinho de maionese fazer mímica naquele guardanapo distorcido que é o seu altar. O gari mais gente boa de que se tem notícia é o Vasconcelos.

Vasconcelos namorou durante dois anos minha irmã mais velha. Ele jogava futebol de botão comigo e sempre que perdia ia pro banheiro se afundar na coca. Um dia mamãe pegou ele a cheirar sorrateiramente, eu acordei da cama e tudo não passou de um sonho. Era meu aniversário – uma montanha viva de livros nascera dentro do meu quarto. Rapidamente comecei a revirar os livros, a sensação de ter marcado um gol na final da copa era a tônica do meu bom humor. Tesouros e tesouros literários, e ainda um vídeo do Chaves para assistir.

A noite trouxe meus amigos em sua esteira, e todos fomos beber aquela cachaça triunfante no bar do Joca. Arrepiei na sinuca e deixei estarrecido meu amigo anão, José Elias, torcedor do Paysandu.

Uma comissão de ovos de codorna para o aniversariante.

Uma dúzia de aplausos-mudos comoventes.

No final da ópera, todo emocionado e besta, nem percebi que eu mesmo borrara a cueca bege num descuido fatal. Não tem importância, fui pra cama com Jezebel e ela mal percebeu: naquela noite fizemos o meu filho Jaime Fox, meu maior orgulho nesse planeta nocivo. Ele é gari.

sábado, abril 08, 2006

Ministério das bad companys

Hey Nélson, vamo no rolê from hell ae?

Hmm, como vai cê a fita?

Vamo ae, Bar do Zé, sexta stoner : um litro de White Horse e speed freak all night long!

Puts,

Bandinha rolando surf music e o catsaralho, você nem vai gasta muito com goró lá dentro...

Pfff...

Tá dentro?

Cara, eu to muito racional e literário hoje. Nem vou.

Ah é?

Ahan.

Passaram-se uns dias. As noites então sucederam-se agradáveis e sem muito alvoroço para os rapazes whisky rock-a-roller. Aí, um dia chego eu, onze da matina, todo torto e com fala arrastada empolgante :

Ae rapaziada, vamo moe a cabeça ? Um conhacão ali no bar da esquinoza do veneno turbo por conta do tio aqui, vamo nessa?

Iiiii, nem rola, ‘sas’ hora? Cê tá doido.

Opa, demoro. Agora é que eu vou viver estalado junto à pulsação do demo. Vai que amanhã eu pego vitiligo e morro desapaixonado.

Nem vô Nélson, tenho que trampá.

O rolê tem que ser padronizado então? Seu senso de responsabilidade não comporta nada que atinja o horário de almoço de um dia lazarento e não uma balada pós horário nobre on the weekend?

Naquele dia fiz dívidas, amores fugazes e amizades hard rock. Diversão a menos de dez reais e sorrisos para o córtex cerebral ficar esperto pros dias que virão. Tropecei bêbado nas alamedas do prazer, e não caí. Nenhuma vez.

Fiquei dono lícito de uma ressaca canina, com o famoso e tradicionale cabo de guarda chuva guardando meu hálito confuso. Precisei de reforço sonífero: experimentei um ronco furioso no dia seguinte, das três da tarde às dez da noite. Escrevi umas bobagens numa folha, urinei a rodo e voltei a dormir uma da manhã pra acordar meio dia. Fritei a moringa bagarái, sonhei o corvo e matei todos os pesadelos assim que acordei com o rosto todo inchado. A minha podridão física e desgaste mental by jurubeba são punk rockers desde sempre.

Eu gosto dessa desgracera flutuando sob meu ser em chamas boêmias. É aí que entra em cena, todo espalhafatoso e kamikaze, o velho dito que sempre funciona: desorganizar pra organizar desorganizando.

quarta-feira, abril 05, 2006

HERMELINDA

Hermelinda, ainda não entendo nada de você. No nosso tempo de namoro, tu fostes ótima para mim, e confesso que amei tua essência com afinco. Depois enjoei de ti, desgaste dois ponto zero. É Hermelinda, por uma dessas essas variantes banais do destino eu acabei rapidamente me separando de ti. Admito que não pude segurar por muito tempo meu passarinho dentro da gaiola, coisas da vida né baby.

E um dia eu estava bêbado como um cachorro, e na carência do momento, tentei uma nova aproximação. Você tratou de exercer uma parcela importante do seu orgulho pra cima de mim. Felizmente minha amnésia alcoólica fez a parte dela, pouco eu lembro da nossa conversa tola daquela manhã.

Hermelinda, você é uma linda garotinha, contudo é pouco pra mim. No motor aqui não entra qualquer espírito mediano fazendo escala pelo normal-fosco. O normal não combina com minha sede de prazeres. Eu prefiro o subnormal comendo uma salada de demência esquizofrênica à ter que aturar sua sistemática mania de ser boçal ao acordar.

Tenha uma boa noite Hermelinda; não fique pra titia. Você merece um engenheiro. Hermelinda, eu não preciso entender você.

ROCK NA ROÇA

O que me empolga numa cidade ananias são as pessoas. A trutagem é o céu da roça, que resiste ao peso dos dias. Caminhar, caminhar n...