terça-feira, março 27, 2007

Apenas terça-feira

Olá, bom dia! Está começando mais um Show Feliz, aqui pela sua Rádio Manguaça. Você sintoniza a Rádio Manguaça pelo 1654 AM ou mundo afora, pela internet, através do site www.radiomanguaca.com.br e assim tranquilamente entra em contato com nossa vistosa programação diária.

Os termômetros aqui no estúdio Lucas Toluca indicam vinte e seis graus, esse é o outono brasileiro, nove horas e trinta e dois minutos, que manhã, que manhã agradável! Aliás, bastante apropriado fruir a vida hoje, e tenho que admitir a você, amigo ouvinte: esses contagiantes raios solares que lambem lentamente a janela do quarto andar, do edifício Marabel deixam-me a ponto de involuntária ereção perniciosa.

técnica - Otacílio Gomes - Ofélia cozinha

Aniversariantes do dia 27 de março: Lúcia Berenguevtz, socialite de renome em toda Botafogo no Rio, Marcos Alegre, apresentador e Nara Vanessa, prostituta.

Curiosidade do dia: Jésper foi o cabeleiro de Ipeúna que registrou a maior incidência de micose em seu modesto salão. Devoto de Nossa Senhora do Livramento, Jésper foi morrer logo após o trigésimo caso, ao compartilhar um barbeador elétrico com um companheiro de serão, o imigrante ilegal Thompson.

Quer anunciar aqui no Show Feliz? Ligue pra gente, nossa secretária o receberá pelo fio de maneira respeitosa, cordial. 35346700, 35346700. Vamos agora tratar do artista do dia.

Henrique Amaral, roteirista desempregado, nasceu filho de pau d'agua, no bairro de Tristina, cidade de Morábia, depressão da Bahia. Levou chumbo grosso durante preocupante infância, a ponto de esquecer quem era. Sim, mal se lembra do passado como jornaleiro, poeta e marinheiro.

Comeu Ferreira Gullar no Projac pra depois assinar minisséries e figurinos do Criança Esperança. Hoje é global, e garoto propaganda da Cílios.

(Saio pra bebericar café, balango o saco, peido em silêncio, concordo em respeitar a Xuxa em conversa trivial de msn. Permaneço aqui no estúdio, proporciono bocejos a mim mesmo, preciso de mais café.)

( O pessoal do esporte chega. O chefe está viajando, comendo bolinhos gordurosos na costa do Sauípe. )

Agora vem um triplex pra "..." (peço Beatles pra minha esposa, ela dorme agora e lá vem "Across the Universe/I saw her standing in there/Lucy in the sky with diamonds) . Converso na ligadeira atrapalhada com o irmão Jeremias, que pilota a mesa e alma subcutânea do Show Feliz, entre Shakespeare e Presley, entre cervas e miolo de boi - paradigma reluzente da camaradagem, essa é a inesgotável manhã de terça, de bermuda e sombrancelha simpática.

Onze horas vou-me embora, a ouvinte liga elogiando o triplex, pede mais uma melodia para afago do submarino sanguíneo, uncle Elvis em cena - quantos ouvintes despedaçados verteram as últimas lágrimas no exato momento em que o Show Feliz executava suas funções comerciais.

Almoço daqui pouco com a patroa recém despertadinha(não posso derrubar café no notebook aqui na Manguaça Radio), cerva a rodo, tem jogo do Brasil e cartela cremosa do amor infalível. O marido mais perdido na esmagadora felicidade de todo o dial dos dias.

segunda-feira, março 19, 2007

Saidera do Verão firmeza

Verde, geladeira foda, abriga o essencial, alimentação quase preguiçosa, fim de semana prodígio. Geladeira aconchegante, arrumou dupla perfeita com o novo chão, marrom, irmão escocês, fino brilho sob a mira de pés descalços. Não é frio nem Rio – e eu não sei ao certo qual o nome desse piso, deve ser frio, acho. Mas o guarda roupa é zerinho, branco, like a jogador de neve, iglu assobiante. Ah, as paredes, mal posso lembrar-me da cor, sei que o sabor é algo entre giz de cera cansado e contente com carne de hambúrguer sem tomate, de textura agradável, tanto para astecas químicos quanto para aspirantes ao legado de Wilde num domingo de grelha e Kaiser Gold. A cama já conheço, é de sortero porém customizada, arquitetado no tamanho bom pra repousar a pança e dormir sereno, abraçado loucamente com a patroa - tranquilidade freme lirismo.

Domingão a tarde, depois do rango no supermercado, resolvi aderir ao ofício da lavação de louça. New York Dolls comandando a chapação orvido adentro, eu geralmente acordo mais cedo que ela, já espoleta, ela herdando prologanda preguiça. Pegamos seis e pouco da tarde o busão no meio da avenida São Carlos, por sorte o sinal fechado, e a viagem transcorre rápida com "gostinho maroto de quero mais", e as cervas vão descendo como H2O, uma beleza. Depois saímos no rolê andarilho from hell, invandindo o sossego de Rivers. Ela trinca, trinco eu tamém, soluço pra cá, andar torto pra lá - chove pra caralho depois, ela clama pelos últimos gestos antes da morte, prévia experimental do fim, última conferência na praça do centro, luzes dos postes refinando a saudade, posso sentir cada palavra sua como se fosse a última, eu afogado pelo frio, gotas violentas furam o asfalto, ela ri por lágrimas- e sabe o quanto prezo, AMO perdidamente e assim transporto-me incomparavelmente cúmplice no telhado daquele fundamental mês de agosto, o ano é 2018.

terça-feira, março 13, 2007

The memory remains


Você recebe o magro salário, de cara vazia, torra o início da fatura na farfa suficiente pra fazer Ain’t My Bitch soar com mais punch e bronhar o ego antes do almoço frango. A grande piada novamente - ao menos o salário frouxo alcança o preço, aspira sonoramente raiva, eis-me puto, a sentir invencibilidade ranger arcada, arranhando pela força canina a corrente sanguinea, não enxergo o derrotado, fodo com a ignorância da logística do medo.

***


Você já matou alguém?
Já.
Eu também.
O meu foi foda, pé de cabra nas costas.
Pode crê
Como foi o seu?
Eu chutei a cabeça de um mendigo na volta do carnaval do Ginástico...e você?
Ah, catei o neguinho que comia minha mãe escondido do meu coroa...
Pela mãe? Que bosta, tanto faz ter mãe ou não,
Quantos anos você tem?
16
Eu tenho 15 também
Vamo pega no F as próxima 5 que eu agilizo o restão de Paisano pra nóis
Tedeu

***

Morfina com trutas médicos, mesa na calçada, decotes ornando cabelos lisos sob brincos de argolas, Marcelo Fontes relembra os dias de glória, ainda não era o corno convencido nessa época de escolinha.
Fábrica do (E)rro em Goiânia. A pílula babaca e sua refinaria de baitolagem financeira.
O bar do Genivaldo fechou as portas vadias depois de 50 anos, o último adminstrado mostrou-se nó cego e inadaptado ao mundo, deixando órfãos por todo o centro da cidade e também em astronaves periféricas. Pra virar floricultura.
Rolê interminável no caminhão arrebitado do primo Messias. Terminou um resto de Tex, parou em Boa Esperança do Sul e decidiu encarar o vaso, até o fim, até o fim, o suícidio mais idiota que acordado não vivi.

quarta-feira, março 07, 2007

Fiada comunicação no convés Madame Nostalgia


Jogávamos ping pong numa terça-feira, tarde marota, época do colegial. Minha casa estacionava bem perto da escola, ponto de encontro depois das aulas. Uma casa já bem carcomida, possuía um quintalzão comprido, e era só a negada acionar a campainha, abrir o portão, estacionar a bike em algum canto e pronto: permissão para arrotar, caçoar da mãe do próximo, humilhar algum coleguinha e dar raquetadas descoordenadas. Puta zona de escola pública. Não há como negar, uma baita saudade acelera o peito ao lembrar daqueles dias despreocupados e burlescos. Havia permissão segura para agir como perfeito idiota. Engraçadinho e estúpido conjugavam-se harmoniosamente. Recordo com um pouco de receio como catava a espingarda de chumbo escangalhada e descarregada do meu velho para assustar facilmente o narigudo Cléber, caboclo que estudava no 1º F, aquele imbecil fã de heavy melódico escandinavo pronto sempre prum riso escalafobético.

A negada da minha sala só queria saber de matar aula, se amarrava no alvoroço do boato difamatório espalhado pelas fileiras da sala em folhas catarradas, adorava acender aquele fino no mocó,ouvia Maiden nos fones com ampla satisfação e na máster series da puberdade ultrapassada conferia peitos e bundas das gostosas e candidatas a grávidas semianarfas. Óbvio que o mercado corria complexo, os racionalistas do oba oba defendiam que “barangas necessitadas” apenas distribuiam uns beijos em manezões, que seriam zuados eternamente. Ah meu amigo, de praxe essa porra toda. Incontáveis também as vezes em que íamos no embalo juvenil de fazer trilhas no Horto(onde já levei cada capote, por sinal), e também comparecer ao Rodízio de Pizza mais barato, sem direito a beber nada porque a grana era contada, colecionando moedas a sacolejar pelo bolso daquela surrada calça de moletom furada na parte do saco...

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E a disputa do vinte-e-um no basquete clamava pancadaria em seu término. Acertar o companheiro com uma bicuda dava bônus para acordar no dia seguinte com a auto estima adequada, um tanto quanto elevada talvez. E o parceiro que largava a bicicleta na casa do coleguinha em dia de chuva, e ao voltar para buscá-la encontrava a mesma em frangalhos? Ossos do ofício, diria meu coroa aposentado e ainda desprovido da pedrinha no rim. Mas que era foda matar uma bola de longa distância, sem ao menos tocar no aro, pra depois bradar aquele eufórico “CHUUUPA”, isso é inegável...

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Crescer vendo incansavelmente as trapalhadas do Chavinho, rangando pão francês com mortadela marbarata e Tubaína num simples banco de praça, discutindo se o batera do Purple botava no bolso o do Sabbath e etc e tal. Dormir sonhando com as glândulas mamárias da professora virginal de English, acordar com a calça jeans esporreada e chegar atrasado na previsível aula boqueta de Educação Física, descobrir a eficácia do preparo de um miojo por gosto espontâneo. Iludir o processo sináptico natural de encarar a dolorosa idéia da morte após redentora sessão de cinema, peidar em volume elevado e borrar ingenuamente a cueca nova, não trazer a prova de Física com nota baixa com a assinatura do responsável (e ser chamado de burro por não falsificar aquela porra) pagar multa homérica na locadora do Centro, reclamar que o chicrete de sabor massa perde o gosto rapidamente, ficar dias sem freqüentar o chuveiro e perder numa dispensa angustiante os lábios da lolita cavala, que nem grande coisa compunha.

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domingo, março 04, 2007

ODORICO


Sempre saía pra tomar umas par com o Marquinho. Moleque gente fina. Invariavelmente dávamos uns tirinhos por aí também, só na tranquilidade. Até o dia em que a mãe do cabra bateu as botas. Ele tava antes naquela onda ginasial de só se ligar em ouvir AC/DC, Motorhead e Ted Nugent. Eu já caía mais pro Sabazão, Grand Funk e na pilha pelo Stones, é claro. Mas, voltando ao assunto morfético que é a morte, o negócio ferveu pra ambas as partes.O Marquinho passou a entrar nervoso na mão armada, já eu fui psicodelizar-me com ácido de trinta conto, roubava tudo do meu tio designer que uma vez por semana hospedava-se no sobrado dá minha vó(o puto tinha como um de seus pertences um apê grã fino na alta Campinas). Sei é que via o Marquinho cada vez mais raramente, uma vez acho que flagrei o fita de relance numa Marajó toda socada. O Zé Larica, um punheteiro crasse, dizia que o Marquinho catou o bicho, ficou infectadão mesmo. Ele que se foda. O foda é que tive ciência desse fenômeno quando minha irmã mais nova caiu morta. Se bem que até hoje eu ficava na dúvida se a Julinha era irmã legítima ou não, sendo que agora aposentei essa nóia besta. O próprio Zé Larica tacou um filhote nela. É estranho. Eu não dou sorte, nunca dei sorte com mulher mesmo, desde a época de nerd ao pseudo junkie fritadão, por isso acabei caindo pro universo homo, botei pra foder na fantasia de encarnar traveco mesmo, nem dá nada pessoal. Ainda que o povo da firma lá desconhece essa informação.

O DESODORANTE

Parei com o ácido no verão de 2001. A produtera nem proporcionava os impulsões oníricos e viajandões de outrora; no fim permaneci indiferente no role. Ataquei de fabricador de pininho de pedra, tive lampejos de solvente no quarto da minha vó de porta aberta – na real eu tava de saco cheio de usar droga. Freqüentei a Universal localizada a alguns metros da residência, e pra falar a verdade foi lá que o Felício veio mudar minha trajetória. Tive atração por ele de imediato – e, pra ser sincero, indaguei qual é que era a daquele desodorante.

O SUPOSITÓRIO

A última vez que a coca aterrisou no meu corpinho resultou através de uma singular cena, logo após a exibição de A Noite Americana, pelo supositório fiado que o Felício me arrumou.

E O ZÉ LARICA?

O Zé Larica tava pegão no Corcel quando topou comigo procurando programa. Eu molhado de shortinho laicra, batonzão roxo desbotado, bota rosa New York Dolls bem colossal, pegando serelepe no pirulito do Felício e cheio de viadice pra dar. Eu defendia com pungência o discurso da igreja e também enchia o bolso no rego do sábado vadio. Como minha existência configurou-se inapelavelmente vazia e com gostinho acre , um simulacro do tanto faz, eu optava pela mudança de ares constantemente e nunca saboreei nada de edificante nisso, todavia reencontrei com o rock and roll dos tempos de caçula. Montei uma banda super na garagem da mecânica do Marcelo e ensaiando uns blues arrasa-quarteirão com pegada punk tocamos num festival gay e por incrível que pareça fomos pra berlinda da Noruega gravar um slipt com uma rapaziada garageira da Suécia. Amputei uma perna por opção, câncer é mal, vivo feliz, adotei uma criança analfabeta na volta da Europa e descobri que música é uma bosta, cansa demais. Hoje mantenho o despertador de corda por perto, na firma colo de gola pólo, meu chefe é o Héctor Muzzarela. Ainda reciclo 25 anos e meio, chamado de Odorico ao vento.

OUVINDO HARDCORE E LENDO ESCRITORES BRASILEIROS E DO TIO SAM

As pessoas estão sem coragem.  As pessoas brincam verbalmente nas redes sociais perpetuando o lado cômodo da vida.  Já é uma bela bos...