quarta-feira, fevereiro 27, 2008

TÍPICO ENSAIO

Estava na época dos ensaios com a banda. Chegaria a qualquer momento, no fim da preguiça mental e física. Teríamos de ensaiar à noite, por causa do calor, e o início frio arrancaria a esperança de progresso talvez. As pretensões ficariam no chão, dinamitadas, o desestímulo geral atiraria a desavença contra nós em pontos cruciais, e o projeto ficaria cheio de tristeza. Era um projeto decadente e mal administrado o LOS EDEOTAS, onde os beberrões do rock se apinhavam em vacilos e infatilidades castradoras, e do qual eu me mantinha afastado da sanidade por causa do efeito de copos sujos e do azêdo fumo cheio de amoníaco. Os sons que frequentavam nossas tentativas de ensaio viviam bêbados todo o tempo ou pelo menos, sempre que tinham dinheiro para isso, gastando seus recursos principalmente em cachaça, que compravam em doses ou aos litros intermináveis. Havia erros de muitos gêneros, e letras com nomes estranhos, e poucos se dignavam a escutá-las, exceto nós, bebâdos, também os copos e gargalos de vinho suicidas. As canções que se embriagavam eram chamadas “vamos tocar aquela agora”.

O porão era na Rua da Morte, maravilhosa fábrica não-comercial, sempre coalhada de sujeira, que desemboca na bad trip geral. O sanitário antigo, ao lado da escada, com duas escoriações no ventre, em forma de sapato, dava para água sanitária um triste quadro. À noite, eram esvaziadas as conversações ali por meio de uma solitária bomba silenciosa, puxada pelo marasmo. No verão com todas as janelas abertas, podíamos ouvir o ruído da lenta vizinhança, e o mau cheiro era fortíssimo. Os bares do bairro geralmente eram pintados de marrom e amarelo-preguição; nenhum dos donos nos desprezava, porém esvaziávamos os bolsos e não tínhamos crédito adequado para arriscar mais pileques. Nossa moral aos poucos estava tão suja de moscas quanto os fregueses lunáticos e tagarelas mortos nas esquinas da indiferença.

Toda a pungência da banda chegava de repente, como que resgatada, talvez miradas nas primeiras chuvas de acordes do início; acordes que reviviam algo meio Replicantes, distante e perto de Garotos Podres. Não se conseguia mais ver os estímulos dos tempos em que ensaiar pra tocar em algum pé sujo em Limeira ou Cordeirópolis era válido. O cenário, agora, era limitado pela escuridão da rapaziada, as portas fechadas para novas melodias à base das ervas, das inspirações corriqueiras do interior paulista, das tradicionais bancas de jornais - éramos de segunda classe punk e o hotel da canastrice nos recusava também.

Eram seis ou oito canções de merda até o último desanimar. Fazia um budum terrível e eu sabia quanto me custaria um bom banho, três marmanjos catinguentos espremidos no porão, cantando feito loucos.

Atravessei então o porão, bastante bêbado, avançando até um ponto da sacada onde me fosse possível observar a rua, a fim de verificar se as estrelas estavam funcionando. Não vi porra alguma e concluí que era mané, estava sendo covarde, não teria boa vida; o porão se encheria de fumaça, o porão seria desperdiçado e, com ele, meus dias. Preferi continuar arquitetando assim, sob a chuva lá fora, despejei perto dos amplificadores e da bateria o balde de querosene , meu amigo fósforo acionei, fui-me embora.

sábado, fevereiro 23, 2008

CARNAVAL DA PORRA

Ele estava caindo naquela noite, é claro, apoteose, carnaval comendo solto no salão, ele torto de uísque paraguaio e passando em branco com a mulherada.

Significava muito encenar aquele papel. Duda é carioca. Dissimulado e fake pra dedéu circulava todo garotão no meio da galinhada. Queria um perfume adocicado pra incrementar o currículo tão divulgado pelas piores rodas de cerveja. Desde que chegou do Rio pra rever uns parentes no interior de São Paulo não parou de falar, nem ao menos por míseros vinte e sete segundos.

No mezanino uma multidão de foliões idiotas. Perto do freezer a trintona Ritinha sendo encoxada rudemente pelo Alaor. O santista Alaor! É, o dono da Avenida do Construtor, de quinta à noite sofria com as câibras no rachão da firma, puta zagueiro ruim de bola. Ruim demais. Talvez por isso entrava muitas vezes apenas na etapa complementar da peleja.

E eu lá, bebendo de balde a mais barata. Pelo menos tinha acabado de catar a Catarina enquanto o Tony, seu noivo, havia ido urinar. Ele que tinha uma bola só, a mulecada ria toda sentada na calçada onde ele parava o carro importado, e eu sabia que normalmente a fila do crube é interminável, aí prensei a Catarina nervoso num mocó. Rolou bem rápido, o suficiente pra me deixar com vontade de rangar o cu dela.

Na semana passada revi Um tira da pesada, dublado, é claro, e pensei nisso: que dose dupla! Peguei a vaca e o corno. Como um despistar de otário faz um bem danado pra manutenção da auto estima! Pois é, e a Catarina é uma mina difícil, deu pra pouco neguinho. Pensei na dublagem desse filmaço e me apareceu a Gabriela, carregando tensão no lábio inferior. Com a Gabriela não ia rolar nada, só idéia. O meu pau voltou a amolecer. Amolecia gostoso até, e a Gabriela percebeu meu deslize, já atirou sobre meu ouvido no meio das marchinhas: “O Lalo viu tudo”. Caguei no pau; sempre tem um pescoção na jogada, o chupeta do Lalo iria me delatar.

Aquele carnaval poderia ter sido bem melhor, ou também uma bomba completa, vai saber, se bem que tem horas que revivo o rolê perfeito, eu agasalhando a Catarina num mocó que eu havia recémnasalhando a Rodisso.ruim e gelada, mas npirulito colorido, e eu ali na gandaia, procurando o R descoberto lá no final do mezanino, e depois de possuir a morena sairia andando forte, ia acender meu cigarro invisível e espiar de camarote o semblante perplexo do Tony, mulecote cabisbaixo procurando o pirulito colorido; e eu ali no auge, vivendo de gandaia farofa, procurando naquele mundo de cabeçudos sambantes o Régis pra pegar mais pó fiado, ele era bem alto, a cerva barata e ruim e gelada, mas não, aquela última noite não teve nem um pouco disso.

Pra despistar virei minha camiseta ao contrário, obviamente que não deu certo, eu aceitei o gole de canelinha que meu primo Astolfo oferecia, depois aproveitei e cerrei um pouco a caipirinha de uma antiga companheira de ginásio e pensei: cadê o carioca?

O sujeito que era a própria pose, o carioca comedor tarimbado no planeta vulva, com direito a voz fina e calça justa, nem fodendo. Ele tava na captura do Mark afim de serrar grana e quem sabe testar sua dignidade.

O Mark era bem sucedido com gordinhas. Depois que a Marcela começou a socar uma punheta escondidinha nele, o bicho esporreu de repente na sua camiseta Hering. Só que o Mark não tava nem aí, saiu de rolê paloso, com a camiseta toda lambuzada no meio do mezanino, uma mancha enorme fazendo creme com o incessante caldo do suor. Duda apareceu. Ele partiu pra cima.“É lança, é lança?” – e caiu de boca. As luzes, a calça justa carioca, o sapato. Duda começou a ter um chilique, cadê o barato, isso é leite de marmanjo, solvente da porra, e a negada aos poucos sacou que ele tinha colocado a fuça onde não devia. O José Simão deixou cair a cigarrilha.

Depois disso, Duda sumiu. Mark achou divertido o ato e permanceu ali chapado, sorrindo parado, feito bocó. Eu fiquei sabendo do lança do Duda depois, tive que ir embora a contragosto também, a Gabriela me avisou do rolo again, deu a dica que podia sobrar pra mim, o Tony tava louco no meu encalço.

Incomodado por não poder quebrar tudo na última noite no salão do clube, eu no final das contas agradeci – tinha que trabalhar justo na manhã da quarta-feira de cinzas, precisava muito da grana. Eu respondi ao anúncio e ia integrar o pessoal que serviria cachorro quente prum grupo de escoteiros venezuelanos que visitava a cidade.

Deite-me então, na verdade virava pelo colchão como bife arredio em frigideira, e não dormi, fritei. Alcancei a alma da geladeira, Cinzano não mudou muita coisa. Com gosto de mandioca frita na boca, ainda tentei peidar – eu peidava muito– e falhei; a cueca me embosteando, que bosta. O Duda sumiu e me devia ainda três reais, sem contar aquela polêmica ficha de Bavaria.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

GRUDOLF

A Editora Inverso publicou um conto meu em sua revista eletrônica "Abre Latas". Pra quem tiver afim de passar um pano no primeiro número da publicação e de quebra ler "Grudolf", o endereço é esse aqui:

http://editorainverso.com/abrelatas_01.pdf




Aopa, só isso.

Eu espero acordes que não desistam de cocainar meu dia, mesmo quando já nasceu morto. Espero notas que não apliquem a tortura do t...