quarta-feira, outubro 30, 2013

quarta-feira quase coerente

quarta-feira quase coerente. 

a vida transcorrendo em ritmo de suor lá fora, e o meu pescoço tá podre. pescoço duro é osso. 

mas uma quarta-feira humilde, o chão do quintal continua  amarelo, é amigo dos pobres - e quase quente demais.

temos que atravessar o fogo, "o labirinto de insegurança" - em Rivers muitos carros pra pouco espaço - os motores em excesso congestionam as orelhas da paz, mas você está de pé, ouvindo outros sons amarelos, enquanto novas descaminhadas luzem a cada esquina, e já que você vai dialogando com qualquer dimensão, aproveite.



Foto de Lou Reed

domingo, outubro 27, 2013

O POBREMA É O SIGUINTI

o problema do patrulhamento ideológico é que muitas vezes o caboclo não consegue nem levantar uma folha de alface neural e já abre o ralo pra cima, distribuindo abobrinhas à rodo. 

e claro, como em toda cômica controvérsia rola sempre aquele apego piegas à verdades fixas, cômodas. 

verdades absolutas que vão sendo distribuídas só pra ganhar uma espécie de terreno vazio, verdades inabaláveis correndo sozinhas dentro de um verdadeiro par ou ímpar aleatório.

o legal é o debate respeitoso e longe da praga trivial, bate-bola dinâmico mil grau, com as diferenças postas e repostas no horizonte, sem os rótulos como meros porta-vozes ventríloquos do fajuto - artifícios cansativos que vão  esmerdeando logo de cara o rumo da prosa.

a arte do diálogo precisa ser respeitada, vamos acender uma cambalhota no meio desse egoísmo purpurinado em preguiçosa arrogância e curtir uma alegre discussão de responsa, chefia.

eu acredito na vida

eu acredito na vida. é claro que a morte precisa de um sentido.

eu curto uns objetos falantes, também aqueles largados pelo louco asfalto dea cidade, como uma imensa rocha localizada na manhã de hoje por um amigo, uma rocha monstra e pesadona logo ali, perto da Avenida 29.

eu acredito na vida com o calor da amizade, justa, leal.

porra, e tá calor pra caralho. 

pafúncio tomou quinze chuveiradas na sequência, aidete cinquenta e oito e não serviu de nada, o calor ri, o calor é sacana.

duas noites atrás o tapete no céu parecia água suja, alternado em clarões cinza-rápido, repentinos cruzados nos olhos do sossego, mas eu não temo a chuva, se ela quiser tomar um café comigo vai ter que ser sem açúcar.

***

quinta-feira, outubro 24, 2013

Antoine Roquentin, o pequeno-burguês:

"Interroga-me com os olhos: aprovo, abaixando a cabeça, mas sinto que está um pouco decepcionado, que desejaria mais entusiasmo. Que posso fazer? É culpa minha se em tudo o que ele diz reconheço incidentalmente citações, ideias alheias? Se vejo reaparecerem, enquanto fala, todos os humanistas que conheci? E conheci tantos! O humanista radical é particularmente amigo dos funcionários. O humanista dito "de esquerda" tem como principal preocupação conservar os valores humanos; não adere a nenhum partido, pois não quer trair o humano, mas suas simpatias se voltam para os humildes; é aos humildes que dedica sua maravilhosa cultura clássica. Geralmente é um viúvo de belos olhos sempre úmidos de lágrimas; chora nos aniversários. Gosta também dos gatos, dos cachorros, de todos os mamíferos superiores. O escritor comunista gosta dos homens, desde o segundo plano quinquenal: castiga porque ama. Pudico, como todos fortes, sabe ocultar seus sentimentos, mas sabe também, através de um olhar, de uma inflexão de voz, fazer pressentir, por trás das palavras rudes de justiceiro, sua paixão agridoce por seus irmãos. O humanista católico, o retardatário, o benjamim, fala dos homens com ar  embevecido. Que belo conto de fadas, diz ele, é a mais humilde das vidas, como a de um estivador londrino ou a de uma operária que pesponta botas! Escolheu o humanismo dos anjos; escreve, para edificação dos anjos, longos romances tristes e belos, que frequentemente recebem o prêmio Fémina.

Esses são os grandes papéis principais. Mas há outros, enorme quantidade de outros: o filósofo humanista que vela por seus irmãos como um irmão mais velho e que tem o senso de suas responsabilidades; o humanista que ama os homens tais como são; o que os ama tais como deveriam ser; o que quer salvá-los com sua concordância e o que os salvará, quer queiram quer não, o que deseja criar novos mitos e o que se satisfaz com os antigos; o que ama no homem sua morte; o que ama no homem sua vida; o humanista alegre, que tem sempre uma coisa engraçada para dizer, o humanista sombrio que encontramos sobretudo nos velórios. Todos eles se odeiam entre si: como indivíduos naturalmente - não como homens" 

quarta-feira, outubro 23, 2013

É OU NÃO É, AMAURY?

Não é falando um trem de palavrões a cada frase chavão que você vai ser respeitado.

Isso aí parece coisa de criança montada, que decora a televisão inteira, ou daquele estilingado papagaio com defeito, afinal espontâneo nem quando morrer o sujeito será. 


E outra, ficar com muito xingamento nesse tom falseta, meu jovem, principalmente no trato com nobres conhecidos, isso aí é viver num escudinho sem vergonha, é ou não é, Amaury?

terça-feira, outubro 22, 2013

Três acontecimentos tão dolorosos, tudo tão recente.

Viver é perigoso, viver é angustiante.

Pessoas queridas sofrendo demais. Horas interminavelmente trágicas. Amigos perdidos cada um à sua maneira, a dor tão lancinante, cruel. 

E outros amigos vendo de fora, alguns inconsoláveis, outros mudos, mas eles vão unidos, comovidos na descida, tristes corações.

Perto do fim, nós vamos com o tempo consumido em dor, tempo sôfrego inundando o espaço, paredes de quartos derretidas em lástimas, você vai pra cama, pro colchão, veja aqueles gritos silenciosos, almas perturbadas em olhares nublados andando insones. Interno e externo o movimento da perda responde pela dor, tão complexa, cruel.

Entre esquinas da desilusão, tragos desesperados vão amanhecer solitários. O silêncio nunca é o bastante. Pelas casas, a perplexidade contaminada de niilismo, brutais porradas dos dias.

E esses últimos dias trouxeram-me  três acontecimentos terrivelmente dolorosos, pessoas queridas em perigo, confrontando a dureza da vida, o absurdo explode qualquer réstia de alegria: em diferentes graus, em profundos cortes na alma.

quinta-feira, outubro 17, 2013

SAPATO PODRE E A SEDE

Eu tenho um sapato que está com sede.

Pensa nos meios de obter a redenção. É fácil, não é?


Para diminuir a sede, é um gole de suco Ades, gelado, agora.


Porém tal obsessão está neste exato momento no tablado, com a preguiça. A luta é boa, mas a preguiça deu uma chave de braço de arrepiar.


Eu quero água da torneira, já pensei assim, não é sapato?


Mas atualmente o Ades vai servir de marmita. Afinal, tenho me alimentado pouco, analisa no fundo o sapato, um pouco apreensivo por combustível.



Meu sapato está com sede de Ades sabor simpatia. 


Antes de dormir o sapato precisa molhar o bico, é inegável.


Precisa refrescar a alma, a sola, senão o sono é sacrifício. Sem líquido a dormência é como se fora a existência solene de um podre eterno esgoto sem refresco, sem tranquilidade, crescido em odores desagradáveis.


Mas o sapato é preguiçoso, porque sua vontade de iniciativa toma uma lavada da falta de vontade, o langor aqui é uma música suave na calmaria do Havaí, três famílias, três gerações tomando aperitivo numa tarde ensolarada sem fim.


Calma aí, levante o sapato. 


Sapato entrou com uma voadora pelas costas da preguiça.


Sapato irrompe no espaço livre, são passadas semelhantes a quem quer microondas, o sapato é o passageiro guerreiro que busca aplacar a sede sem medo, e independente do que o Epicuro pensa sobre o assunto - que assunto? Saciar apetites no planeta dúvida.


Tá certo, e a geladeira recebe o sapato e o Shefa, Choco Shefa, a caixinha gelada coloca em dúvida o sapato, mas o Ades é escolhido. Amanhã de manhã tem Choco Shefa. Golão gelado o Sapato delira. Sapato precisa acordar cedo. Vai pra roça. E agora. Antes de sapatear imóvel em lençóis, uma meia mini pizza é saboreada amigavelmente.


E depois o sal é recebido com água da torneira, eis o fim de uma ronda, o sapato é feliz.

quarta-feira, outubro 16, 2013

POSSO FALAR?

É engraçado, é engraçado quando o entrevistado não consegue falar.

Ele permanece com a boca travada, igual catraca de bicicreta 18 marcha falida - não, o entrevistado não consegue falar, porque o entrevistador é um trouxa que quer demonstrar conhecimento a todo instante. 

Imagino esses sujeitos que apresentam programas de televisão, como o Abujamra e o Jô Soares comprando frases de efeito na avenida Paçoca. 


É maçante, chefe, maçante como perceber aquele livreco-parido-em-arquitetura-chinfrim brochando a estante da vida. De novo? E então a conversa se desfaz como polvilho derretido antes do nascimento, sangue de minhoquinha grudado no tédio, sem PORRADA, sem imaginação o bastante.




terça-feira, outubro 15, 2013

RESENHA: AÇÃO TÓXICA - AÇÃO E REAÇÃO (2005)




Bumbo que vai é bumbando sua mente.


Riffs nas cordas cortantes, a rua agora vive contra-mão, veloz-alucinante.

Baixo e guitarra e batera unidos em rapidez constante – que vão rasgando com fúria o coração do ouvinte - eis aqui o lendário Ação Tóxica, de Porto Ferreira-SP.

O disco “Ação e Reação” nasceu em 2005.

São nove cacetadas de arrepiar o esqueletão.

A primeira música é um singular ritual hardcore,verdadeira iniciação ao coro.

Orquestração da vingança - no recheio solo frenético, gritos de paura com mosh, pacotão doido que relembra “The Garden of Earthly Delights” de um Bosch absintado em  Diógenes, chimbalanceira desgracenta no seu aparelho sensorial cheião de drive e satisfação.

É:  e a bateria assinada por Vareta é assassina, ruge o vândalo do hardcore, no piloto da percussão avassaladora que não se cala por nada, que destrói o próprio caos.  Vareta toca com alma, como poucos.  


Bem, antes de prosseguir, devo dizer-lhes o seguinte: esse disco é um dos meus favoritos da atualidade.


A admiração pelo som dessa rapaziada é crescente. 


Você fecha os olhos e ouve o disco no céu do inferno, será que vocês me entendem?


Você assiste ao vivo, e sabe será cada vez melhor, já vejo o Thiagão Magnani no bass berrando feito um louco em palhetadas que preocupam Einstein.

A intensidade do som é algo semelhante ao Cristiano Ronaldo meter 3 gols num dia e aí o Messi só de birra marcar 6 no dia seguinte - só que melhor, sacumé?  Mas não, vamos ver de outra forma, calma...


Vou usar outra expressão, longe do futebol: o Ação Tóxica criou a NBA do hardcore de rua, batismo de navalha que ilumina nossas veias.


E assim o disco segue com “Políticos”.

Puta letra. “Filhos da puta”, o coro anuncia , o baixão comendo solto e selvagem atropelando todos os prédios de lama do pesadelo urbano. 

Tóxico no poderio avante, com poder de desvendar o crime coagido com inteligência no trato, o Ação Tóxica vem voando baixo, perfurando Marte!


Vejo o Vareta cantando junto cada verso, baquetando em fúria, e em meio às suas pausas sereno, segurando o prato de ataque com a inclinação de caboclo matadô, sem piedade marretando tudo e com algumas beers na bolota, se pá. 


Veja bem: você está no seu quarto, e olha pra cima: uma fumaça invisível vai tomando conta do recinto, você ouviu o Ação Tóxica hoje, tá certo?

E essa atmosfera “peculiar” vai criando um terreno de graves terríveis no éter com a camisa do Cólera, e as paredes recebem graves bandidos, médios trêbados, agudos mortíferos: freqüências que vão abençoando em correria e empolgação nossa bomba-relógio, que avisa que suas poucas horas de vida na terra estão bem entregues à cachaça metafísica do “faça-você-mesmo”.

Sim, e a guitarra vai cortando firme, é o Ação Tóxica hardcore-navalha no globo!

Então surge o solo de “Ataque Suicida”, que explode ainda mais os destroços de um funesto amanhã, deixando os vestígios nos seus dedos: você quer o repeat, sacumé.

Impossível manter-se parado durante a audição desse disco.

É de arrepiar, esse café.

Ouça “Ação e Reação” pelo menos uma vez por semana. Note que as pessoas na rua ganharão semblantes diferenciados, pode apostar.

E “Lixo cultural” é uma das parladas que aparecem na seqüência. 



Baita canção agradável, que arrasta você pra Praia do Pogo.

A areia sob seus pés é parceira e a curtição sem fim.

Tá todo mundo renascido no pogo, na vigília dos dias o pogo cumpre sua humirde função, em belda lucidez nós vamos pogar até morrer.

"Parasita" vem na seqüência, com uma levada de responsa na proposta.

Tem uma parte cadenciadona que enche o peito de fúria, porque as letras do Ação urgem protestando com punch, são reais, concretas pedradas na janela do mole conformismo.

Depois, é a hora e a vez do HINO tomar conta da cidade, os ouvidos refeitos em pura alegria: "RAMONES É ROCK AND ROLL!" Animação, alegria, anarquia e chapação dos sentidos: hey ho, let’s go!

E pra fechar com chave de dinamite vem “Estamos no começo”, com gostinho de i wanna more, hijosdeputa!

 Que registro! Que disco! Ao final da audição, este trabalho faz o mundo dos adjetivos ficar desprevenido!

Ação Tóxica derruba você, é a trilha perfeita pra você almoçar euforia enquanto janta respiração hardcore - sentindo-se mais vivo do que morto-vivo você está mais-do-que-vivo - mais pilhadão e obstinado que alheio e normalzão, eis você aqui mermão-  viva o hardcore-navalha do Ação!


E porra, vai tomar no cu. É a quarta vez seguida que escuto esse discão nessa agradável madrugada.

sexta-feira, outubro 11, 2013

CRIANÇA E PERPLEXO AO ALÉM DO FIRMAMENTO

Criança era um cara focado no desinteresse, embora seu afeto amparasse a loucura com muito afinco.

Era o inverso dele o Perplexo, porque era sério.

Os dois reuniram-se para vomitarem juntos, urravam, e a alma gutural lhes invadia o peito, dois primatas, Perplexo mais agudo era uma alma vadia, cuspindo sangue na face da Calma, enquanto Criança andou nu pelas nuvens e expeliu pus pelo ânus.

terça-feira, outubro 08, 2013

FERA E MUITO FERA

Fera: você viu que fera as manifestações de ontem em SP e no RJ?


Muito fera: vi, Fera! Muito fera!



Fera: a mídia mais reaça comenta só o foco do desvio. pra variar né? gasta linhas de clichê com os vândalos, com as depredações. eu quero que se foda, já tá uma bosta esse país, vamos acabar de enterrar não fazendo dever porra nenhuma, como tudo mundo faz ou finge ser, afinal ninguém tem caráter, nem o meu pai, a corrupção vem dentro do pastel de feira, tem mais é que arregaçar tudo e esporrear no freezer...


Muito fera: foda.

segunda-feira, outubro 07, 2013

RESENHA: VURMO - A LUTA É VOCÊ QUEM FAZ





Quinze pedradas, sem piedade!

Tudo no melhor esquema "faça você mesmo". 

Disco de venda proibida. Disco em memória de Marcos Aurélio Dantas Flabes.

A capa é truezona, em preto e branco, com um belo desenhão aludindo ao terror urbano em profusão - em meio ao caos vigente de eras e eras de safadeza e miséria humanóide na terra. 

Esse é o Vurmo, de Minas Gerais, e seu disco "A luta é você quem faz!".

O registro é empolgante e coeso do começo ao fim, discão podre que eu pirei forte. 

Saca só chefia: em março de 2013, Podrão, Kiko e Heduardo entrariam no Cerrado Estúdio, para registrar épicas pauladas como "Até quando estupidez?", "Merda", "Miséria no lixo" e "Pelo menos vomitei".

Triozão do capeta, o Vurmo. Com Kiko no baixo, alternando os vocais com o chefia Podrão, que ataca na guitarra. E no tupaco-paco vem o Heduardo, descendo a lenha na madeira, infernizando a geral num punkão hardcórre dos bão!

Atenção: gostei pra caralho da harmonia lírico-escatológica do discão!

O recheio é todo simpático e podrão, sujão e sincero: bom pra pogar o cerebelo de segunda a segunda!


É impossível ficar parado com a crássica "Merda", que abre sua essência com estas belas palavras: "te dou a minha merda pra você comer".

"Destruição, caos, medo e dor. Desrespeito com o povo pobre. Destruição, caos medo e dor". A primeira faixa já se fora e de antemão você já desconfiara que o climão seria esse, protesto com jabs na alma do ouvinte.

"Capitalismo a nos fuder" continua com o ritmo punkão alucinante, relembrando em fúria o duro viver dos humildes e excluídos, dos garis, do trabalhador oprimido, dos sufocados sem um puto no bolso e fodidos até a medula. E porra: a música soa urgente, visceralzona.

"Paz verde", "Desemprego gera violência”, “Overdose de cachaça”, “Pelo menos eu vomitei”. O play termina pedindo repeat, cheio de distorção revigorante pros nervos, como um bom pão com mortadela cheio de noise embriaguez para alma!

Pois é, e assim é encerrado o discão: trilha sonora real dos dias, obstinada em insubmissão, obstinada em alcançar dignidade para as pobres crianças do cinzento e fúnebre amanhã.

Valeu Podrão pelo presente, tamo junto chefia! Satisfação!!

DOWNLOAD: http://www.sendspace.com/file/9dg3i0

ROCK NA ROÇA

O que me empolga numa cidade ananias são as pessoas. A trutagem é o céu da roça, que resiste ao peso dos dias. Caminhar, caminhar n...